Como o próprio nome indica, o Governo tem a responsabilidade de cumprir e fazer cumprir a Constituição da República, e na tomada de posse, todos os elementos do Governo, de Ministros a Secretários de Estado são chamados a repetir o seguinte "Eu abaixo-assinado afirmo solenemente, pela minha honra, que cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas". Todavia, o que assistimos é a um Governo que não respeita a Constituição e teima em pensar e atuar como se estivesse acima desta e que as regras e leis são para outros cumprirem. Ora vejamos exemplos:
- No Orçamento para 2012 uma das medidas era o corte nos subsídios de férias e de natal da função pública e reformados. Na altura o Tribunal Constitucional admitiu que era inconstitucional mas evocou o interesse público de excepcional relevo para deixar passar [1]. No Orçamento para 2013 o Governo tentou novamente insitir no corte do subsídio de férias dos funcionários públicos e reformados mas agora o Tribunal Constitucional chumbou a medida novamente considerando-a inconstitucional [2]. Quem diria?!
- No Orçamento para 2013 o Governo tentou ainda cortar os subsídios de doença e de desemprego (5% e 6%) mas o Tribunal Constitucional considerou a medida inconstitucional [2]. O Governo para contornar este chumbo alterou a medida acrescentando que vai aplicar o corte SE no final o valor do subsídio for maior do que o salário mínimo nacional 419.22€ [3]. Com esta medida o Governo pretende arrecadar 150 milhões €, uma insignificância ao lado dos 1000 milhões que foram arranjados imediatamente para pagar swaps ou 1100 milhões que foram injetados no BANIF recentemente... Fica a medida de comparação.
- A Constituição no Artº 118 [4] refere que "A lei pode determinar limites à renovação sucessiva de mandatos dos titulares de cargos políticos executivos". Esta lei é a Lei n. 46/2005, de 29 de Agosto [5] e sobre ela tem havido muita polémica, cujo expoente máximo é a candidatura de Luís Filipe Menezes, no Porto, e de Fernando Seara, em Lisboa (ambos PSD). A lei é clara e diz "1 — O presidente de câmara municipal e o presidente de junta de freguesia só podem ser eleitos para três mandatos consecutivos". O Presidente Cavaco Silva veio recentemente a público dizer que tinha encontrado um erro na Lei, porque em vez de 'de câmara', a versão do documento que os deputados analisaram em 2005 dizia 'da câmara' [6]. Entre 'des' e 'das', desdenha-se a verdadeira intenção da lei que não podia ser mais clara. Com 'de' ou 'da', a lei pretende referir-se à função e não à autarquia a que diz respeito. Além disso é no mínimo rebuscado pensar que uma lei cujo título diz que "Estabelece limites à renovação sucessiva de mandatos dos presidentes dos órgãos executivos das autarquias locais" quer apenas dizer que o presidente apenas está limitado a 3 mandatos no mesmo sítio, podendo depois saltar para outra autarquia. Uma última curiosidade apenas sobre este caso, uma vez que pelo menos em Lisboa a decisão foi para o Tribunal Constitucional, se a candidatura de Fernando Seara for chumbada o PSD já não vai a tempo de avançar com outra pessoa porque o prazo para isso já terá passado. Aguardam-se desenvolvimentos.
- A Constituição no Artº 118 [4] refere que "A lei pode determinar limites à renovação sucessiva de mandatos dos titulares de cargos políticos executivos". Esta lei é a Lei n. 46/2005, de 29 de Agosto [5] e sobre ela tem havido muita polémica, cujo expoente máximo é a candidatura de Luís Filipe Menezes, no Porto, e de Fernando Seara, em Lisboa (ambos PSD). A lei é clara e diz "1 — O presidente de câmara municipal e o presidente de junta de freguesia só podem ser eleitos para três mandatos consecutivos". O Presidente Cavaco Silva veio recentemente a público dizer que tinha encontrado um erro na Lei, porque em vez de 'de câmara', a versão do documento que os deputados analisaram em 2005 dizia 'da câmara' [6]. Entre 'des' e 'das', desdenha-se a verdadeira intenção da lei que não podia ser mais clara. Com 'de' ou 'da', a lei pretende referir-se à função e não à autarquia a que diz respeito. Além disso é no mínimo rebuscado pensar que uma lei cujo título diz que "Estabelece limites à renovação sucessiva de mandatos dos presidentes dos órgãos executivos das autarquias locais" quer apenas dizer que o presidente apenas está limitado a 3 mandatos no mesmo sítio, podendo depois saltar para outra autarquia. Uma última curiosidade apenas sobre este caso, uma vez que pelo menos em Lisboa a decisão foi para o Tribunal Constitucional, se a candidatura de Fernando Seara for chumbada o PSD já não vai a tempo de avançar com outra pessoa porque o prazo para isso já terá passado. Aguardam-se desenvolvimentos.
As vozes de elementos cuja responsabilidade é cumprir a Constituição, respeitar o Tribunal Constitucional e cumprir leis não deixa dúvidas, veja-se:
07/04/2013 Passos Coelho "A decisão do Tribunal Constitucional tem consequências muito sérias para todo o país" [7]. Então o Governo quer impor medidas inconstitucionais e agora a culpa é do Tribunal Constitucional por chumbá-las?
21/06/2013 Luís Montenegro (Presidente do grupo parlamentar PSD) "o futuro pode mesmo passar pelo fim do Tribunal Constitucional" [8]. Sim, para quê um Tribunal que chateia e obriga a cumprir a lei máxima do país e não permite que se roube (sim, o que se está a passar é classificado como roubo) o povo à vontade?
21/06/2013 Luís Montenegro (Presidente do grupo parlamentar PSD) "o futuro pode mesmo passar pelo fim do Tribunal Constitucional" [8]. Sim, para quê um Tribunal que chateia e obriga a cumprir a lei máxima do país e não permite que se roube (sim, o que se está a passar é classificado como roubo) o povo à vontade?
5/4/2013 Teresa Leal Coelho (Vice Presidente PSD) O PSD afirmou-se hoje perplexo e muito preocupado com a decisão do Tribunal Constitucional [9]. No ano passado o corte dos subsídios foi declarado inconstitucional mas ainda assim incrivelmente abriu-se uma excepção, e agora há perplexidade por este corte ser novamente declarado.. inconstitucional?
5/4/2013 Eduardo Catroga (PSD) "A decisão do Tribunal Constitucional surpreendeu-me pela negativa" [10]. Diz o senhor que recebe uma pensão de 9693€ que "O país não pode suportar estas pensões" a 22/5/2013 [12]. Pudera...
12/06/2013 António Borges (Consultor do Governo) "Chumbo de quatro normas do Orçamento representa um obstáculo ao progresso mais rápido de Portugal. Não sou jurista nem constitucionalista, mas sempre achei uma decisão incompreensível. Como economista não consigo ver a lógica daquelas decisões” [11]. Todos sabemos que este senhor acha que cortar salários e cortar no subsídio de doença e desemprego é exatamente aquilo que o país precisa. A Constituição que defende a equidade na repartição de sacrifícios é que é um obstáculo! Em declarações prévias é público que este consultor do governo gostaria de ver o salário mínimo reduzido ainda mais [16]... Sem comentários.
14/06/2012 Passos Coelho "Assumo aqui publicamente o compromisso de mudar a lei (da greve), (pois atualmente) não obriga à fixação de serviços mínimos" [13]. Greve em que por lei estão determinados serviços mínimos?... Então qual é o significado de greve? É fazer o máximo de pressão sobre a outra parte para obter uma reivindicação? Ou é fazer pressão mais ou menos forte, a tender para assim assim?
20/6/2013 Alberto João Jardim "Cercear o direito à greve nas Forças Armadas, Forças de Segurança, Instituições de socorrismo, transportes, saúde, bem como no aparelho de Justiça" [14].
24/5/2013 Poiares Maduro (Ministro) "O Tribunal Constitucional português limita em excesso a liberdade de deliberação democrática em determinadas matérias" [15]. Entendamo-nos bem, este senhor está a chamar o ato de o Estado se apropriar dos salários dos trabalhadores (sim porque subsídios de férias e natal são salário) como liberdade de deliberação democrática.
5/4/2013 Eduardo Catroga (PSD) "A decisão do Tribunal Constitucional surpreendeu-me pela negativa" [10]. Diz o senhor que recebe uma pensão de 9693€ que "O país não pode suportar estas pensões" a 22/5/2013 [12]. Pudera...
12/06/2013 António Borges (Consultor do Governo) "Chumbo de quatro normas do Orçamento representa um obstáculo ao progresso mais rápido de Portugal. Não sou jurista nem constitucionalista, mas sempre achei uma decisão incompreensível. Como economista não consigo ver a lógica daquelas decisões” [11]. Todos sabemos que este senhor acha que cortar salários e cortar no subsídio de doença e desemprego é exatamente aquilo que o país precisa. A Constituição que defende a equidade na repartição de sacrifícios é que é um obstáculo! Em declarações prévias é público que este consultor do governo gostaria de ver o salário mínimo reduzido ainda mais [16]... Sem comentários.
14/06/2012 Passos Coelho "Assumo aqui publicamente o compromisso de mudar a lei (da greve), (pois atualmente) não obriga à fixação de serviços mínimos" [13]. Greve em que por lei estão determinados serviços mínimos?... Então qual é o significado de greve? É fazer o máximo de pressão sobre a outra parte para obter uma reivindicação? Ou é fazer pressão mais ou menos forte, a tender para assim assim?
20/6/2013 Alberto João Jardim "Cercear o direito à greve nas Forças Armadas, Forças de Segurança, Instituições de socorrismo, transportes, saúde, bem como no aparelho de Justiça" [14].
24/5/2013 Poiares Maduro (Ministro) "O Tribunal Constitucional português limita em excesso a liberdade de deliberação democrática em determinadas matérias" [15]. Entendamo-nos bem, este senhor está a chamar o ato de o Estado se apropriar dos salários dos trabalhadores (sim porque subsídios de férias e natal são salário) como liberdade de deliberação democrática.
E são estes governantes que queremos continuar a eleger para fazer novas leis e fazer cumprir aquelas em vigor? Está visto que as leis e a Constituição são apenas para alguns...
[14] http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=3282240
[15] http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=654041&tm=9&layout=123&visual=61
[16] http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/antonio_borges_defende_manutencao_do_salario_minimo_mas_o_ideal_ate_era_que_os_salarios_descessem_para_combater_desemprego.html
[15] http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=654041&tm=9&layout=123&visual=61
[16] http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/antonio_borges_defende_manutencao_do_salario_minimo_mas_o_ideal_ate_era_que_os_salarios_descessem_para_combater_desemprego.html





