
Hoje temos prenda: chuva, vento e frio. Enquanto ia para o almoço comecei a pensar o que menos gostava, e o pensamento à engº levou à seguinte conclusão:

A ideia veio da JSD, e logo o CDS agarrou-a com todo o entusiasmo: vamos levar a tribunal José Sócrates e outros responsáveis do governo anterior. A ideia tem apoio, há petições na internet e a direita está entusiasmada, porque acha que assim pode distrair o povo do que se está a passar agora com o roubo dos subsídios de Natal e de férias. Cuspir em alguém é a solução de emergência nacional, para esta direita que tanto gosta de voltar ao seu gene troglodita sempre que tem de se explicar perante o povo.
O problema é que a ideia é inaplicável e é, em si mesma, um grotesco disparate.
As leis já têm prevista a criminalização da fraude, da corrupção, do abuso de poder. Se há o menor indício de que crimes desses se tenham passado, e que algum primeiro-ministro. ministro, presidente, deputado ou empresário os tenha cometido, devem ser investigados, julgados e punidos se for o caso.
Mas o que não se pode criminalizar é a diferença de opinião política ou as propostas diferentes para o país, ou o fracasso das políticas. Se assim fosse, cada governo punha em tribunal o governo anterior para encontrar um bode expiatório. Cavaco Silva teria sido julgado por exemplo por querer afogar as gravuras de Foz Coa, atentado contra a cultura da humanidade. Ou seria julgado pelo défice gigantesco que criou. Prisão com ele. Guterres teria sido julgado por ter errado as contas do défice. Prisão com ele. Durão Barroso e Paulo Portas seriam julgados por terem mentido a respeito das armas de destruição maciça no Iraque. Prisão com eles. Sócrates seria julgado por tudo. Prisão com ele. E um dia Passos Coelho seria julgado por ter mentido na campanha eleitoral, prisão com ele. Convinha que os fanáticos da prisão dos seus opositores pensassem que um dia lhes caberá a eles.
E, já agora, que tal preocuparem-se com os crimes concretos que precisam de ser investigados e punidos, que sabemos que existiram? O CDS, antes de julgar os governantes anteriores, bem podia explicar como é que recebeu financiamentos ilegais quando se negociava a autorização de abate de árvores na Herdade Portucale. E os governantes do CDS bem podiam explicar porque é que na Alemanha se julgam empresários por terem corrompido políticos portugueses no caso dos submarinos, mas em Portugal não acontece nada. Talvez a justiça fosse mais justa se fizesse o seu trabalho e os governantes actuais não se entretivessem com acintosos disparates.
retirado do FB de Francisco Louçã